BERNARDO MELLO FRANCO
O Globo
BRASÍLIA RIO – Em sua primeira reunião, a CPI da Petrobras aprovou nesta quinta-feira o plano de trabalho proposto pelo relator, senador Romero Jucá (PMDB-RR), que, na análise da oposição, favorece o governo. Jucá propôs a rejeição de 66 dos 88 requerimentos apresentados à comissão. Entre eles, estão a convocação da Lina Vieira, ex-secretária da Receita Federal, e um pedido de informações sobre patrocínios da estatal à Fundação José Sarney. ( Saiba mais sobre a CPI da Petrobras )
Lina Vieira foi demitida semanas depois de a Receita divulgar nota em que classificou de irregular a manobra contábil feita pela Petrobras para alterar seu regime tributário em 2008. (Ouça o comentário de Gerson Camarotti: CPI da Petrobras começa esvaziada pela crise do Senado)
O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) criticou o trabalho do relator:
- Vossa Excelência optou por convocar aqueles que supostamente defenderão a causa governista. E eliminou preliminarmente aqueles que eventualmente possam denunciar. Teríamos aqui um tribunal só com advogado de defesa e sem promotor. Assim não investigaremos as causas das irregularidades que a CPI se propõe a fazer.
- O governo não teme, não tem o que discutir. Mas não posso partir do fato antes dele existir. Quero ter a visão do todo, ver onde é que tem as falhas. Essa CPI tem que ter a grandeza da Petrobrás – respondeu Jucá, escolhido relator pelo presidente da CPI, o senador João Pedro (PT-AM).
Com a maioria, a base aliada pretende evitar que a comissão seja usada politicamente para abalar o governo Lula nas vésperas das eleições de 2010.
Jucá, por sua vez, insinuou que a oposição pretende usar a CPI para aumentar a pressão pela saída do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), do cargo. Na véspera, o Conselho de Ética arquivou quatro pedidos de investigação contra o senador, e outras seis devem ter o mesmo destino.
- Qual é a intenção, começar a discutir patrocínio por causa da Fundação Sarney ou discutir seriamente patrocínio? Esta CPI vai ser um embate sobre o presidente Sarney? – indagou.
Dias, autor do requerimento para investigar a fundação, negou a intenção de atingir Sarney e disse que as denúncias sobre desvios de verbas da Petrobras para a instituição surgiram após a instalação da CPI.
- Não tenho nenhum propósito de usar a CPI da Petrobras para atingir a Fundação Sarney. A CPI já estava constituída quando surgiu a questão da fundação – disse ele,que também é autor do requerimento de criação da CPI.
Durante a leitura do seu plano de trabalho para a CPI, Jucá alegou que a ex-secretária da Receita não teria mais o que acrescentar, uma vez que foi demitida pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. Ele propôs apenas a convocação de Otacílio Cartaxo, novo secretário da Receita.
- Não sei nem se há ou não há questão. Consta que não há. Não faz sentido chamar a senhora Lina para falar de algo que não existe – disse Jucá.
A convocação de Lina foi pedida por dois senadores de oposição: Alvaro Dias e Antonio Carlos Magalhães Júnior (DEM-BA). A avaliação dos oposicionistas é de que ela poderia causar constrangimentos ao governo e contestar a tese de que a manobra contábil foi regular, como defende a direção da Petrobras.
O senador tucano afirmou que a convocação de Lina é fundamental para explicar o caso da manobra contábil que levou a Petrobras a reduzir em mais de R$ 4 bilhões o pagamento de impostos em 2008.
- Se não convocarmos a ex-secretária, não teremos o contraponto. Vossa Excelência está convocando apenas quem tem posição favorável à Petrobras. É insubstituível a convocação da senhora Lina. Não ouvi-la é abrir mão de conhecer o fato na sua profundidade.
Por consenso, os senadores da base governista e da oposição decidiram não votar os requerimentos que já tinham parecer pela rejeição. Foram aprovados, porém, 22 requerimentos com pedido de convites e convocações. Entre eles, os do presidente da Petrobras, José Gabrielli e do presidente da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Haroldo Lima.
Na próxima terça-feira deve ser ouvido o novo secretário da receita Otacílio Cartaxo, para falar sobre a manobra contábil feita pela Petrobras para alterar seu regime tributário em 2008.
Governistas se reuniram na noite de quarta-feira
Na noite de quarta-feira, Jucá se reuniu com todos os senadores governistas na residência vice-líder do governo, Gim Argello (PTB-DF), para afinar o discurso e apresentar seu plano de trabalho.
- A CPI está muito bem estruturada. Ontem tivemos uma reunião, aqui em casa, com todos os membros da comissão da base aliada, que está mais unida do que nunca – informou Argello antes da reunião.
O parlamentar não acredita que o fato de Paulo Duque (PMDB-RJ), presidente do Conselho de Ética, ter arquivado quatro pedidos de abertura de processos contra Sarney, possa contaminar as investigações conduzidas pela CPI.
- Governo é governo, oposição é oposição – resumiu o parlamentar.
O senador Delcídio Amaral (PT-MS) também tem a mesma opinião:
- A CPI tem um foco e é dentro desse foco que vamos trabalhar. Tem um objeto claro, então não podemos deixar que outras questões do Senado contaminem os trabalhos da CPI. Não acredito que essas cosias vão se confundir. Está muito claro o programa de trabalho do senador Romero Jucá – afirmou Delcídio, em entrevista à GloboNews TV.
O inquérito sobre a Petrobras engloba denúncias de supostas fraudes contábeis e em licitações para reforma de plataforma de petróleo. Também vai apurar suspeitas de superfaturamento na construção da refinaria Abreu Lima (PE) e possível desvio de recursos dos royalties do petróleo por funcionários da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).